terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Ser o dono da bola não é tudo



Por Daniel Gomes

Em toda pelada existe um desse. Normalmente, perna-de-pau. Isso ainda quando não é míope, joga de óculos e vai sempre arrumadinho (até demais). O seu time sempre ganha fácil e sem risco nenhum, nunca tem placar apertado. Isso porque, quando bem entende, pega a bola do jogo, enfia debaixo do braço e sai em disparada. Morga a pelada, mas sai vencedor. Esse é o famoso "dono da bola".

Assim era Paulinho. Em peladas no terrão ou no asfalto cheio de paralelepípedos da rua Aurora, nunca perdia um jogo sequer. Se achava o bam-bam-bam, mas na hora em que os melhores iam tirar o time no par ou ímpar (o sistema mais justo do mundo), ele sempre era o último a ser escolhido.

- "Tiro o Pedro", dizia um.
- "O Lucas vem pro meu time", dizia o adversário.
- "Como ninguém tirou ainda o Daniel, o melhor que tem aqui na rua? Vem pro meu time", continuava o desafiante.

Aí surgia a figura do magrelo, com cara de desafiador. Olhos esbugalhados davam a tônica da expectativa. O olhar dava o recado de 'se não me tirar, eu vou embora'. A bola de couro já estava entre o cotovelo e o sovaco.

- "Tá bom, então. Vem, Paulinho", falava o selecionador em uma decisão que vencia fácil, fácil a do purgatório.

E assim, a pelada começava. Todas as vezes, o time de Paulinho ganhava. Era como roubar doce de uma criança e os adversários, que já entravam "em campo" sabendo que iam perder, só iam jogar pelo prazer de tentar fazer um gol ou dois, de acordo com que o placar permitisse. Além do toque na bola, um drible lá, outro cá, que eram, em sua maioria, aplicados em cima do próprio Paulinho, só de vingança.

Um dia, toda a molecada da rua Aurora se reuniu. Em uma grande roda, era definido um amistoso. Os meninos da rua Coronel Castro os tinham desafiado e isso não ia ficar barato. Em nível de seleção, o melhor time que os vizinhos já viram estava prestes a ser formado. A escalação ainda não estava definida, mas já se sabia que Paulinho iria ser titular. Afinal, a bola era dele.

O AMISTOSO E O DESAFORO

Chegando no outro quarteirão, já dava para perceber que o negócio seria diferente. O amistoso era sério e a realidade do futebol jogado naquele setor do bairro era bem diferente. Em vez de uma rua estreita, o jogo iria ser em um campo. No lugar das pedras ou da terra, gramado. Metas com redes, adversário uniformizado, juiz... Todo mundo estava empolgado. Combinados dois tempos curtos de 20 minutos cada, a bola (de Paulinho) ia rolar.

Começou o jogo e nem deu tempo pra respirar, os meninos da rua Coronel Castro saíram na frente em um chute de fora da área. No lance seguinte, uma tabela rápida e outra "bomba": 2x0. Os adversários pareciam bem mais entrosados e o time de Paulinho ia se segurando como podia. Um pênalti pra lá de duvidoso foi marcado a favor da equipe adversária e já eram três gols anotados.

O segundo tempo começou e os meninos da rua Aurora sabiam que iam ter que levar na raça. Aí, se mandaram pro ataque e conseguiram diminuir com um gol de Daniel. Em um lance rápido, com menos de 10 minutos, Paulinho deu um passe para Lucas fazer o segundo e encostar no placar. Só que depois disso, o juizão dava como certo o fim do jogo e assim o fez.

- "Peraí, como assim já acabou? Isso é injusto", disse Paulinho.

Rapidamente, saiu do banco de reservas do time da rua Coronel Castro outro magricela. Confrontador como Paulinho, partiu para a discussão. E em tom de "igualdade".

- "O jogo acabou e a gente venceu", disse o menino.
- "Mas não pode. A bola é minha e a gente tem que continuar jogando. Só tem que acabar quando o cronômetro marcar 20 minutos", esbravejou Paulinho.
- "Pode sim. O jogo acaba quando eu quiser. Sou o dono do campo e meu pai é o juiz, o dono do apito".

Acabava a discussão. Acabava o jogo. Acabava, de uma vez por todas, o reinado de Paulinho. A coroa imaginária do reizinho dono da bola caía e a democracia no futebol finalmente chegava na rua Aurora.

Imagem:
Can Stock Photo - (canstockphoto.com.br)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Eu, o merengue

Mais difícil que ter o Barcelona como adversário, é torcer contra

Por Daniel Gomes

Meu despertador tocou cedo. Eram 6h. Eu, assim como milhares de brasileiros, estava ansioso para a partida mais aguardada dos últimos seis meses. Eu ia ver o Barcelona enfrentar o Santos, mas pela primeira vez em uma tarefa diferente. No fundo, eu queria apreciar o futebol arte, isso é verdade. Mas a situação inédita é que eu iria torcer contra o time espanhol. Tarefa pra lá de difícil.

Queria que o Santos ganhasse. Seria uma premiação para o início de um resgate que fez o futebol brasileiro ser conhecido no mundo inteiro. O que mais chega perto de futebol ofensivo, alegre, com belos dribles e gols, poderia se tornar campeão do mundo. Mesmo que o Santos jogasse um futebol pragmático contra o Barcelona, se restringindo a marcar, se vencesse, estaria de ótimo tamanho. Mas não deu. Do outro lado, havia 11 extraterrestres.

Messi comemora o primeiro gol.
Pra mim, ele já estava comemorando o título
"Se fosse qualquer outro time do mundo, o Santos poderia jogar de igual pra igual". Falei isso durante o jogo (quando o placar estava apenas 1x0, mas eu já sabia que o Peixe iria levar a pior). O Barcelona é um time de futsal que joga futebol de campo. Toque de bola rápido e preciso, além da definição mortal. A vantagem que se leva quando um jogador habilidoso sai das quadras para os gramados, estava encarnada em uma harmonia excelente de onze atletas. Vi Messi destruindo com o jogo e minha paciência esgotando.

Eu vibrava e dizia "vai, vai", quando o Santos puxava um contra-ataque ou quando deu raros chutes no gol. Quando o Barcelona tocava a bola, ficava de cabeça inchada. Vi o que é o sofrimento de um torcedor do Real Madrid, por exemplo. Que tarefa difícil ser rival desse time, hein?

Infelizmente, não deu. Como já havia dito em outro texto, não há como comparar Neymar e Messi e os noventa minutos jogados mostraram isso. O argentino sobrou. O brasileiro mostrou imaturidade, acabou ficando escondido, o que é comum em um jogador que tem apenas 19 anos. Vamos pegar leve com ele.

Não há pra quê comparar. O da direita é melhor.
Pior pra quem torce (ou torceu) para o Santos
Mas minha torcida continua. Não contra o Barcelona. Isso daí eu não vou querer nunca mais. É castigo. Mas vou continuar torcendo para que o futebol brasileiro volte a ser premiado por uma dinâmica alegre, de dribles e gols fantásticos. Chega de só futebol-resultado. O brasileiro tem que saber unir essas duas coisas e dar como primordial a exibição do primeiro fator. Que aprendam com o Barcelona. Nem que seja torcendo contra.

Fotos: Gol Barcelona - Reuters
Messi (primeiro gol) - Franck Robichon/EFE
Neymar e Messi - Reuters

sábado, 17 de dezembro de 2011

Comparar pra quê?

Entre Neymar e Messi não existe comparações. O argentino é melhor. Mais ainda existem dúvidas de quem vence o Mundial


Por Daniel Gomes

Não se fala em outra coisa.  O jogo entre Barcelona e Santos, o mais aguardado dos últimos seis meses (desde que o alvinegro venceu a Liberadores) vai acontecer. Não houve um novo Mazembe, a zebra não teve espaço.  E parte da mídia esportiva parece estar mais ansiosa que seu Jorge, paulista de 82 anos, que viu Pelé levantar as taças dos dois mundiais que conquistou pelo Peixe. O jogo mais importante das últimas três décadas da história santista está mexendo com o que se chama de ansiedade.

A partida tem tudo para ser mágica, todos sabem. De um lado, o novo popstar do futebol brasileiro, Neymar. Do outro, o melhor jogador do mundo, Lionel Messi. O que foi escrito na última oração (essa mesma que está linha acima, que você acabou de ler) já responde a uma pergunta que vem particularmente, me enchendo o saco nas últimas semanas. “Quem é melhor, Neymar ou Messi?”. Gente, por favor. Isso é sério? Lógico e evidente que o argentino leva vantagem.

Messi joga em um futebol de maior nível tático, até pelas competições que disputa. Até o próprio Mundial ele já conquistou, em 2009 e inclusive, fez o gol do título. Os lances de genialidade dele despontam a qualquer momento e não são as “más-atuações” (diga-se falta de títulos) pela seleção argentina que vão apagar o que ele já fez. Até porque Neymar, convenhamos, também não fez muita coisa pela seleção brasileira.  

Messi quase fez um golaço na semifinal...
Aí você vai dizer que Neymar só tem 19 anos. Messi tem 24 e mais tempo de futebol. E é nesse ponto que eu ia chegar. O brasileiro tem um potencial para ser muito melhor que o argentino e disso eu não tenho dúvidas. Se tem que ir pra a Europa para evoluir taticamente e fisicamente, aí já é outra história. O santista tem um currículo que impressiona antes mesmo de chegar aos 2.0. Amanhã ele pode deixar os torcedores, cronistas e simpatizantes por futebol com os olhos arregalados se ajudar o Santos a ganhar. Isso mesmo, ajudar. E não ganhar sozinho. O mesmo serve pra Messi.

O que faz o jogo de amanhã ser tão mágico não é só Neymar e Messi. No Barcelona, tem Xavi, Iniesta, Daniel Alves... Do lado santista, Elano, Borges, Ganso... Outros fatores e outros jogadores que podem desequilibrar esse duelo.  Não há por que comparar Messi e Neymar. É um ultraje querer subir forçadamente o brasileiro a um patamar maior. Todas as etapas têm que ser cumpridas passo a passo, sem pressa.

Outra pergunta que me fez perder a paciência foi a seguinte: “Neymar, como será jogar contra Messi?”. Essa daí foi castigante.  Eles já jogaram um contra o outro! O dia foi 17 de novembro de 2010 em um amistoso entre Brasil x Argentina, no Catar. Quem venceu? Messi. Ou melhor, a Argentina. O placar foi 1x0, gol do ‘La Pulga’. 

...mas quem fez um golaço até agora no Mundial,
foi Neymar. E isso não quer dizer nada
Um a zero pra Messi nesse “duelo” inexistente. Mas amanhã, o duelo pode ser vencido por Neymar, se o mesmo placar se repetir, agora, a favor do Santos. A vitória alvinegra não será uma zebra como o Mazembe foi há pouco mais de um ano atrás, até porque o elenco santista tem qualidade. E se o Barcelona perder, Messi vai continuar sendo melhor que Neymar.  Parem de forçar a barra. A única coisa que eu vou forçar amanhã vai ser a tampinha do meu Yakult. Afinal, cerveja às 7h30 da manhã é pra louco. Vou deixar pra beber um pouco mais tarde, quem sabe, sabendo já que o Santos foi campeão. 

PS.: Até agora, foram duas finais recentes com brasileiros em mundiais organizados pela Fifa. A primeira, em 2005. Todo mundo apostava no Liverpool, mas deu São Paulo. Um ano depois, o mesmo Barcelona era o “tampa”. O Inter venceu. Dois placares de 1x0. Não seria muito pedir outro placar magrinho só pra deixar o franzino seu Jorge feliz, né?

Todas as fotos da matéria: Agência Reuters

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma identidade por semestre

No começo do ano,  os três maiores clubes de Pernambuco tinham características que foram mudadas completamente
no segundo semestre

Por Daniel Gomes

O Pernambucano de 2011 já é página virada. Na disputa do hexa entre Náutico e Sport, quem roubou a cena e os holofotes foi o Santa Cruz, que se sagrou campeão. Porém, se caso um torcedor de um dos três clubes viajou para fora do país, ficou em coma, ou por qualquer outro motivo não acompanhou seu time desde o Estadual e acompanhasse a partir de hoje, com certeza ficaria muito surpreso.

Os três clubes mudaram bastante dentro de campo. Peças mudaram e principalmente, o estilo de jogo e conduzir uma partida ficou bastante modificado. A mentalidade dos três times em buscar um resultado e o extra-campo passaram por uma transformação. Abaixo, entenda o quê e porquê Santa Cruz, Náutico e Sport mudaram tanto.

Bruno Mineiro tem o papel de marcar gols
e não parar na trave, como foi na Série B 2010
e Pernambucano 2011
Sport: De gastador a economizador

Antes de tudo, a folha salarial do Sport não mudou muito do Pernambucano até hoje. Os cerca de R$ 1,2 milhões gastos por mês continuam saindo dos cofres da Ilha. Mas, a direção do Sport procurou se afastar de alguns gastos não compensados. Foram embora o goleiro Gustavo, os zagueiros André Astorga, André Leone, Fernando, Igor e Alex Bruno, o volante Joédson, o lateral-esquerdo Dutra, os meias Romerito e Fabrício, o atacante Pablo Pereira... devo ter esquecido de outros, mas já deve pra ter percebido que os salários destes jogadores não eram nada baixos.

Chegaram no Sport os volantes Danilo e Naldinho, o meia Diego Torres, o zagueiro Raul, o atacante Paulista... todos os jogadores citados jogaram em clubes de menor expressão (e mais outro monte deve ter sido esquecido). A economia foi - ou tentou ser - feita na Ilha do Retiro, tudo para a história de bater na trave dos últimos anos não seja repetida. Até agora, o filme está sendo o mesmo, já que o Sport está na quinta colocação, "cheirando" o G-4 mas não conseguindo entrar. Talvez, com uma receita menor e uma superprodução mais humilde, a história do Leão na Série B mude.

Kieza: o Náutico pode ter seu primeiro
artilheiro na Série B
Náutico: Primeiro descartado antes, pode ser o primeiro garantido depois

Assim como o rival Sport, o Náutico aliviou nos cofres. Além disso, o Timbu tinha um dos melhores elencos do Campeonato Pernambucano e gastou até o que não tinha para ter o melhor elenco da competição, segundo muitos da crônica esportiva pernambucana. Hoje, o Timbu é apontado pelos mesmos jornalistas como um time de bom futebol, mas que não tem elenco e não tem peças de reposição.

Primeiro eliminado do trio de ferro no Campeonato Pernambucano após perder a semifinal para o Sport, o Náutico é o Pernambucano mais bem colocado no Campeonato Brasileiro e pode ser o primeiro do Estado a conseguir o acesso para a Série A. Só faltam oito vitórias. Continuando nos números, o Náutico também está na frente na artilharia. Se no Pernambucano, Ricardo Xavier fez nove gols, mas viu um atacante rival (no caso Gilberto, do Santa Cruz) fazer 12, no Brasileirão a coisa está diferente. O alvirrubro Kieza já fez 13 gols e até o momento não vê nenhum rival na sua frente. Os que ele está vendo pelo retrovisor são Marcelinho Paraíba e Bruno Mineiro, do Sport, que tem sete gols cada.

Tá ruim pra Cunha: o Santa tenta
matar a saudade de Gilberto, mas tá dificil
Santa Cruz: O favoritismo incomoda

Correndo por fora e jogando nos contra-ataques fulminantes. Foi assim que o Santa Cruz se sagrou campeão Pernambucano em 2011. Agora, com o status de favorito e tendo que usar da sua grandeza, afinal é o maior clube da Série D, o Santa enfrenta sérios problemas dentro de campo. O time tem dificuldades para sair pro jogo e se antes era o recuado que contra-golpeava, o feitiço virou contra o feiticeiro. Os "pequenos" da Série D é que entram (bastante) recuados nos jogos. O time tricolor, que estava na ponta da língua do torcedor no Estadual, sofre pelo menos uma modificação a cada rodada, seja por contusões ou suspensões, o que atrapalha (pouco, mas atrapalha) o entrosamento.

Na frente, o time tinha um matador. Gilberto, que hoje está no Internacional, deixou saudades no Arruda. Rodrigo Grahl já deixou o time e não se firmou e hoje no Santa Cruz, Thiago Cunha, Flávio Caça-Rato, Kiros, Paulo Renê, Ludemar e Ricardinho tentam ser esse homem-gol, mas nem a dupla de ataque titular o torcedor sabe. Só sabe que Cunha é titular, mas não sabe quem é seu companheiro. Thiago Cunha inclusive, nem joga a partida do próximo domingo, que vale a classificação coral para a segunda fase da Série D. De campeão para eliminado? A primeira parte do filme chegou a ser desconhecida nos últimos anos e veio encher o Arruda de alegria. Mas, a eliminação é bem conhecida pelas bandas do José do Rêgo Maciel e tropeçar nas próprias pernas mais uma vez está fora de cogitação no Arruda. Tomara que sobretudo em relação a isso, a identidade mude.

Fotos: Mural da capa
Fabyana Mota/ON/D.A Press; Arnaldo Carvalho/JC Imagem/AE; Cecília Sá Pereira/DP/D.A Press ; Ricardo Fernandes/DP/D.A Press; Ricardo Fernandes; Helder Tavares/DP/D.A Press; Antônio Carneiro/Futura Press


Thiago Cunha - Site oficial do Santa Cruz
Kieza - Antônio Carneiro/Futura Press
Bruno Mineiro - Diego Nigro/Folha de PE