Por Daniel Gomes
Em toda pelada existe um desse. Normalmente, perna-de-pau. Isso ainda quando não é míope, joga de óculos e vai sempre arrumadinho (até demais). O seu time sempre ganha fácil e sem risco nenhum, nunca tem placar apertado. Isso porque, quando bem entende, pega a bola do jogo, enfia debaixo do braço e sai em disparada. Morga a pelada, mas sai vencedor. Esse é o famoso "dono da bola".
Assim era Paulinho. Em peladas no terrão ou no asfalto cheio de paralelepípedos da rua Aurora, nunca perdia um jogo sequer. Se achava o bam-bam-bam, mas na hora em que os melhores iam tirar o time no par ou ímpar (o sistema mais justo do mundo), ele sempre era o último a ser escolhido.
- "Tiro o Pedro", dizia um.
- "O Lucas vem pro meu time", dizia o adversário.
- "O Lucas vem pro meu time", dizia o adversário.
- "Como ninguém tirou ainda o Daniel, o melhor que tem aqui na rua? Vem pro meu time", continuava o desafiante.
Aí surgia a figura do magrelo, com cara de desafiador. Olhos esbugalhados davam a tônica da expectativa. O olhar dava o recado de 'se não me tirar, eu vou embora'. A bola de couro já estava entre o cotovelo e o sovaco.
- "Tá bom, então. Vem, Paulinho", falava o selecionador em uma decisão que vencia fácil, fácil a do purgatório.
E assim, a pelada começava. Todas as vezes, o time de Paulinho ganhava. Era como roubar doce de uma criança e os adversários, que já entravam "em campo" sabendo que iam perder, só iam jogar pelo prazer de tentar fazer um gol ou dois, de acordo com que o placar permitisse. Além do toque na bola, um drible lá, outro cá, que eram, em sua maioria, aplicados em cima do próprio Paulinho, só de vingança.
Um dia, toda a molecada da rua Aurora se reuniu. Em uma grande roda, era definido um amistoso. Os meninos da rua Coronel Castro os tinham desafiado e isso não ia ficar barato. Em nível de seleção, o melhor time que os vizinhos já viram estava prestes a ser formado. A escalação ainda não estava definida, mas já se sabia que Paulinho iria ser titular. Afinal, a bola era dele.
O AMISTOSO E O DESAFORO
Chegando no outro quarteirão, já dava para perceber que o negócio seria diferente. O amistoso era sério e a realidade do futebol jogado naquele setor do bairro era bem diferente. Em vez de uma rua estreita, o jogo iria ser em um campo. No lugar das pedras ou da terra, gramado. Metas com redes, adversário uniformizado, juiz... Todo mundo estava empolgado. Combinados dois tempos curtos de 20 minutos cada, a bola (de Paulinho) ia rolar.
Começou o jogo e nem deu tempo pra respirar, os meninos da rua Coronel Castro saíram na frente em um chute de fora da área. No lance seguinte, uma tabela rápida e outra "bomba": 2x0. Os adversários pareciam bem mais entrosados e o time de Paulinho ia se segurando como podia. Um pênalti pra lá de duvidoso foi marcado a favor da equipe adversária e já eram três gols anotados.
O segundo tempo começou e os meninos da rua Aurora sabiam que iam ter que levar na raça. Aí, se mandaram pro ataque e conseguiram diminuir com um gol de Daniel. Em um lance rápido, com menos de 10 minutos, Paulinho deu um passe para Lucas fazer o segundo e encostar no placar. Só que depois disso, o juizão dava como certo o fim do jogo e assim o fez.
- "Peraí, como assim já acabou? Isso é injusto", disse Paulinho.
Rapidamente, saiu do banco de reservas do time da rua Coronel Castro outro magricela. Confrontador como Paulinho, partiu para a discussão. E em tom de "igualdade".
- "O jogo acabou e a gente venceu", disse o menino.
- "Mas não pode. A bola é minha e a gente tem que continuar jogando. Só tem que acabar quando o cronômetro marcar 20 minutos", esbravejou Paulinho.
- "Pode sim. O jogo acaba quando eu quiser. Sou o dono do campo e meu pai é o juiz, o dono do apito".
Acabava a discussão. Acabava o jogo. Acabava, de uma vez por todas, o reinado de Paulinho. A coroa imaginária do reizinho dono da bola caía e a democracia no futebol finalmente chegava na rua Aurora.
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